Questão de – não – gênero!

A não ser que você esteve em Marte na última semana, pode ver pelas mídias sociais o babado entre Ana Paula Valadão e a nova campanha da C&A, que, basicamente, mostra casais trocando a roupa depois de se beijarem (vou deixar o vídeo aqui embaixo). Não vou entrar no mérito da responsabilidade social da C&A ou de qualquer outra fast fashion (como a Zara, que também lançou uma coleção sem gênero), porque já escrevi sobre isso por aqui, porém, a iniciativa serviu de alguma coisa: dar visibilidade a desconstrução de gênero na moda.

Faz um tempo que esta questão tem sido uma crescente, vemos em coleções desfiladas em Fashion Weeks, visuais cada vez mais andrógenos e sem gênero, saindo do convencional super feminino ou super masculino, trazendo a moda em si para algo mais usual, para um lugar comum. Seja na desconstrução de gênero, tornando-o neutro ou incorporação de elementos andrógenos – tanto masculinos, como femininos – a moda tem trazido a diversidade para sua pauta, e, como representante de momentos históricos/culturais, mostra quão é importante discutirmos e combatermos  preconceitos.

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Antigamente, quando pensávamos em incorporar moda sem gênero ou andrógena no nosso dia a dia, sempre remetíamos a peças mais masculinizadas, oversized, enfim, falávamos demais em moletons e jeans boyfriend, porém, com toda essa desconstrução vemos coleções masculinas sendo criadas com pitadas encantadoras de elementos femininos, tão bem incorporados que a gente pensa: porque não tínhamos feito isso até hoje?

Ser gendler neutral não é fácil, pela própria história da moda e construção social, qualquer elemento incorporado em qualquer coleção nos remete a um pareamento de gênero, porém, isto não é de todo ruim quando pesamos em democratização. Em termos muito fáceis e pensando de maneira simplista: é você podendo usar uma camisa com construção de alfaiataria, remetendo ao masculino ou você podendo usar uma jaqueta estruturada e cropped, remetendo ao feminino, sem ter que se preocupar com que gênero quer – ou não – representar.

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Acredito que quando a Coco Chanel pensou, durante sua criação, em roupas masculinas incorporadas na realidade das mulheres, não queria que usássemos jeans e moleton, queria que explorássemos este universo maravilhoso que é a moda, nos aventurássemos em composições que fazem nosso estilo, sem a preocupação se não estamos ladys o suficiente. Acredito na desconstrução no pensamento que vai além do que um gênero representa e sim, a moda como representação pessoal. E tão pessoal que qualquer um seria incapaz de julgar de que gênero estamos falando, por não haver necessidade, somente expressão.

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Está na hora de abrirmos nossa cabeça para o novo, para a representatividade, para democratização. A moda deve acolher e não delimitar. Sua responsabilidade nisso? Amar e aceitar. Apenas.

Temos que sair deste pensamento que apenas o feminino pode incorporar o masculino e aceitar que o contrário é válido, é lindo e que, qualquer pessoa pode ser o que quiser, quando quiser, sem ser julgado por isso.